terça-feira, 6 de setembro de 2011

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Qualquer coisa em Kaikoura

   Não é a primeira vez que passo em Kaikoura. Da outra vez foi uma paragem de alguns minutos para mudar de autocarro. Desta vez estaciono por uns dias. Agora, pergunto-me onde tinha a cabeça, ou a alma, da outra vez. Por que não aproveitei, na altura? Se calhar não tinha ainda a maturidade para sentir o que sinto nestes primeiros dias de Outono, para ver e pensar e concluir que não há outro sítio no mundo que eu trocasse por este, por agora.

   Recordo apenas um facto, dessa outra vez em Kaikoura. Recordo-o bem, porque na altura escrevi-o nas páginas do Expresso. Foi em meados de 2001, um texto sobre uma viagem pela ilha do Sul da Nova Zelândia. Quando o autocarro arrancou, uma passageira, uma inglesa, recebeu uma chamada intercontinental no telemóvel. Respondeu, explicou onde estava e acrescentou, rindo, forte, que nunca se tinha sentido tão viva antes na sua vida. A sua alegria era profunda e misteriosa. Nunca lhe perguntei porque se sentia assim, em Kaikoura. Mas apontei num caderno a sua frase, e nunca mais a esqueci: "I have never been so alive in my life."

   Não é verdade que o planeta seja redondo. É armilar. Anda-se às voltas e nunca se regressa ao mesmo sítio. A estrada,sim, passa por lá; mas o tempo também passa, e leva de nós o que fomos antes. Falta-nos o mesmo momento para podermos regressar ao mesmo sítio. Regressamos já outros, e compreendemos que o sítio já não é o mesmo.

   Este processo é apenas uma faceta dessa caminhada existencial que se chama maturidade. Por vezes, a maturidade trabalha a favor do viajante; por vezes é-lhe contrária. Gostei mais do Equador com vinte e cinco anos que agora com quarenta; mais de São Francisco com quarenta, agora, que com vinte e cinco antes. De Veneza gosto sempre, mas é sempre de uma Veneza diferente - são os anos inseridos no meu olhar que reinventam a cidade em cada nova visita. E de Kaikoura, não tenho comparação porque a primeira vez passou despercebida.

   Creio que sei porquê. Nessa viagem anterior, como em tudo o que fazia então, tinha urgência de prosseguir, de continuar, de ver mais. O meu objectivo era o de descer toda a ilha do Sul até tocar o Bluff, um dos pontos mais meridionais do planeta. Fui saltando de boleia em boleia. Quando não passava ninguém e começava a chover - chove sempre nas fronteiras do mundo - então esperava num terminal rodoviário e apanhava um autocarro. Foi numa dessas ocasiões que apontei o "nunca estive tão vivo na vida". Uma vez segui também de comboio, porque aquele troço ferroviário é um dos mais espectaculares do Hemisfério Sul. E nunca parava.

   O meu objectivo na altura era atravessar; hoje é, cada vez mais, permanecer. Chego a Kaikoura e interrompo a viagem. Começa outra, introspectiva, epidérmica, contemplativa. Há qualquer coisa em Kaikoura que assenta como uma luva nos anos em que me encontro, naquilo que sou. Talvez o mar, que é escuro e mexido mas também limpo e intacto, vital. Talvez as montanhas: uma ramificação da grande cordilheira alpina que se afasta do eixo central norte-sul, paralelo ao litoral e que se desvia para leste até cair a pique sobre o Pacífico. Talvez o encontro: montanha e mar.

   Há qualquer coisa em Kaikoura. Talvez a dimensão de cada casa, e de todas as casas dispersas dentro do espaço que as envolve. Talvez a gente, pouca gente, talvez o clima, muito frio, talvez a região demarcada de vinho branco, o peixe fresco, a fruta local, a economia local, uma espécie de auto-suficiência que é muito diferente da auto-suficiência dos vales do Afeganistão ou dos arrozais das Filipinas. Uma auto-suficiência civilizacional.

   Talvez as caminhadas. Kaikoura serve para caminhar: praias desertas e infinitas, grandes florestas, colinas suaves, prados entre montanhas. E caminhar possui um ritmo homeopático que permite pensar. Penso na lagosta, um dos principais produtos da economia local. Alguma vez algum autor de ficção científica, ao conceber um extraterrestre, teria tido imaginação suficiente para imaginar uma lagosta? Se ela não existisse, nunca teria sido imaginada. Penso na mulher grávida que me serviu um café esta manhã - e que autor poderia conceber uma divisão tão desproporcionada da continuidade da espécie humana? Ou seja, a mulher que aguenta com quase todo processo de geração; o homem que se limita a assistir aos restantes nove meses depois da primeira fracção de segundo. Se não existíssemos, ninguém nos teria jamais imaginado. Kaikoura serve para divagar e eu divago: "Acho que nunca estive tão vivo na minha vida."

   Quem sabe onde se situará Kaikoura daqui a uns anos, quando eu a procurar de novo. Talvez seja demasiado fria, demasiado vazia de gente, demasiado auto-suficiente. Talvez eu não seja suficiente. O mundo não é redondo, mas o destino sabe dar-lhe a volta. Pode ser que um dia volte a encontrar Kaikoura, e ela anda me encontre tão cheio de vida como agora.

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Gonçalo Cadilhe in "1 km de cada vez", pp- 21-23

Não consegui escolher um excerto, ficou aqui o texto todo.
É o que dá ler um livro do Gonçalo Cadilhe depois de se fazer uma viagem. Tudo parece mais bonito. Mudar os nomes dos lugares, alterar um sentido ou outro... Mas o essencial é igual.

Estar vivos na nossa própria vida e ir permanecendo.


República Checa - Agosto 2011

Dekuji! :D







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