sexta-feira, 23 de setembro de 2011

P.S.

Finalmente chegou o dia em que as promessas se concretizaram. As mordaças caíram de podres, de gastas; ficaram para trás. Já era insustentável andar sempre com elas. Mais do que uma, vinte ou trinta. Pesavam mais que chumbo. Construídas por tantas personalidades, elas eram asfixiantes. Altifalantes nuns casos, mordaças em outros. As opiniões próprias não são assim tão importantes. Convence-te disso. Eu não quero saber, ele não quer saber, ela não quer saber. Os singulares não querem saber, muito menos os singulares inseridos nos plurais que, ao fim e ao cabo, somos todos. Sim, isso até é giro, isso até é interessante... - não partilhes, corres o risco de o deteriorar. Põe uma mordaça real - vais ver que é engraçado. Somos todos umas personalidades únicas. Eu já tenho a minha, não preciso necessariamente de conhecer a tua, por mais que a tentes impor. Já não estava a dar. Vocês falam alto demais. Fazem ruído, fazem barulho. É desagradável. Gosto de sítios onde não há este género de chinfrineira, fora do barulho que não me interessa. Já não sou a mesma quando mudo as palavras, quando altero o sentido, quando olho para trás. Quanto de mim é que já me tiraram? Quanto de mim é que eu já perdi? Quanto de mim é que nunca tive? Quanto de mim é que nunca vou ter? E tudo de mim. Deram-me demais, tive de menos. Agora já não sei como aproveitar, já não sei o que fazer. Perdida no meio da barafunda barulhenta de vozes tão importantes. Quero voltar para trás para ir buscar algumas coisas de que me esqueci. Falam-me frequentemente delas, mas onde é que eu as deixei?  Há tanta censura dissimulada. Tantas mordaças. Tanta poesia que não é escrita por causa disso. Demasiadas folhas que nunca saem da gaveta, embora diversas tentativas sejam levadas a cabo nesse sentido. Sempre convencida de que ninguém quer saber, e talvez não queiram mesmo. Mas isso não é condenável. Sejam felizes. Usam-se citações para esconder inseguranças. Alguns fazem-no, outros deviam fazê-lo. Todos correm à minha volta, cada um numa alucinação própria. Procuram algo que só eles sabem o que é, embora achem que estão enganados. É confusa, esta corrida. Talvez porque não é, de todo, uma corrida, e estamos a encará-la como tal. Tantas coisas úteis que são feitas, parabéns.  Era tão bom se pudesse estar noutro espaço sem ouvir a chinfrineira ao fundo, a atordoar-me o pensamento, sem cessar. São prioridades mal estabelecidas, que hei-de fazer? Uma má calendarização, azar. Uma cópia fraca, onde a pontuação altera tudo. De uma vez por todas. Deixar a chinfrineira dominar até ao momento em que os sons calmos me chamam à razão e explicam tudo, mostram-me a verdade. Impossível de saber se sim ou se não. O que eu disse não se confirmou e há sempre alguém para servir de testemunha ocular. A sério, parabéns. Fantástico. Muito bom. Excelente. Nem sei como é que mais ninguém reparou. Até sei, mas pronto... Falta a mordaça. Isto é uma história impedida de ter um final feliz. Falta interesse, falta motivação, falta apoio, falta paixão. O que não falta, está lá tudo, como sempre. Isso não é surpresa. Vou escrever esta história e escondê-la no melhor sítio que encontrar, com esperança de que alguém a venha a ler no futuro, se apaixone por ela e a torne real. Que a traga para o plano da realidade, imitando o que muitos dizem. Se não agora, pelo menos depois. Eu acredito que sim e sou capaz de acreditar sozinha nisto. Na verdade, não é preciso mais ninguém. Isto toda a gente escreve. É impossível de organizar. Não o quero fazer, porque a essência está na desorganização. Vejo o final, o intermédio é o principal obstáculo. E algo se mete à frente. Poluição sonora, que surpresa. Digam o que quiserem, o meu avião já descolou há muito tempo. Olho pela janela. Parece que algo voltou quando outro algo se foi embora. Parece que não dá para ter tudo ao mesmo tempo. Eu sei disso há muito, mas deixei vencer a teimosia. Um dia tu vais ler esta história. Vais achar que ela podia muito bem ter sido escrita por ti. E podia. É que podia mesmo. Acrescenta-lhe algo teu. Se não o fizeres, a oportunidade vai passar para as mãos de quem está ao teu lado, mesmo à frente do teu nariz. Não vais saber o que sentir em relação a isso. Demasiadas palavras, demasiadas palavras. Muita fúria, pouca lógica mas, acima de tudo, o gozo pretendido. Alegria momentânea, muito complicado. Tenta por isto num P.S., não merece mais. Uma breve nota esquecida. Tanto me faz, tanto me fez. Pela primeira vez, é indiferente e não vou ligar a isso. Não podia ser melhor.

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