Eu estava sentada no chão, numa rua qualquer, encostada a uma parede. Não me consigo lembrar de que dia era ou em que local exacto eu estava, só me lembro de que era um fim de tarde frio. Sei que me encontrava numa inércia assustadora. Estava como que petrificada...a vida passava à minha frente e eu simplesmente não via e não sentia. Repousava, assim, sem nada por que lutar; eu era apenas alguém que tinha desistido pois não se achava digna do acto de "não desistir"...seria um acto demasiado forte. Nada me seduzia, nada me retirava daquele estado amorfo.
Até que, de repente e pela primeira vez naquela tarde, os meus olhos deixaram o olhar vazio...eras tu que passavas, a correr, à minha frente. Levantei-me de imediato e, num impulso incontrolável, desatei a correr atrás de ti. Não sei porquê, só sei que o fiz. (talvez porque, quando passaste por mim a correr, olhaste, pelo canto do olho, para mim...apesar de não teres parado de correr...).
Eu corria, agora, como uma louca. Nunca na minha vida tinha corrido de uma forma tão livre e inconsequente, tão espontânea. Tu corrias à minha frente, alheado da corrida de perseguição que se desenrolva atrás de ti, sem saber que eras o alvo dessa perseguição. Corrias de uma forma tão leve e descontraída que quase parecia que não te cansavas. Já eu não posso dizer o mesmo...Corro atrás de ti (ainda sem saber por que motivo...) há um tempo considerável e começo a demonstrar os primeiros sinais de fadiga, normais numa pessoa pouco habituada a estas corridas da vida...
Mas recuso-me a parar. Não quero parar, quero levar esta corrida até ao fim. E qual é esse fim? Esse fim é o momento em que te agarro e corremos lado a lado; é o momento em que tomo a tua cara entre as minhas mãos e tenho a certeza de que és real.. Mas quando será isso? Tu corres tão rapidamente e eu tão desesperadamente... Sinto-me estúpida por continuar com esta corrida mas, ao mesmo tempo, sinto que tenho de o fazer. Tenho que correr atrás de ti, sejas tu quem fores...E só eu sei como corro...!
Olho à volta. Tanta coisa que me passa ao lado, tanto que eu poderia aproveitar, tanto que eu poderia viver e, no entanto, vou no teu encalce! E nada me magoa mais do que ter a perfeita noção de que tu nem sabes que não vais sozinho nessa tua corrida. Fico furiosa - contigo, comigo, com tudo. Mas principalmente contigo, com essa tua indiferença.
Reúno todas as minhas forças e dou o meu máximo. Parece que as minhas pernas vão explodir a qualquer momento, mas eu não quero saber...Estou cada vez mais perto de ti, se calhar se esticar o braço já te consigo tocar! É o que faço. Mas tu, como uma criança brincalhona, esquivas-te de mim. Parece que estás a gozar comigo! Uma fúria imensamente doce apodera-se de mim e faço mais uma tentativa. Consigo tocar-te no ombro e, por um milésimo de segundo, consegui ver que sorrias. Um sorriso que me irritava por tão aberto que era, quase parecia gritar: " Grande corrida, han?".
Mas escapaste-me outra vez. Não te consegui segurar (fiquei demasiadamente impressionada com o sorriso...). Corrias outra vez. E eu lá continuava atrás de ti. Inexplicavelmente (ou talvez por causa de toda esta confusão de corridas) duas lágrimas surpreendem-me durante a minha maratona. Abrando, não consigo manter o ritmo...
Em desespero completo, percebo que não aguento mais. Esta velocidade louca enfraquece-me e desgasta-me. Não é a minha velocidade, é a tua; não a consigo manter por muito tempo. Páro, deixo a minha cabeça cair para a frente e apoio as mãos nos joelhos. Sou uma corredora que fez o seu melhor tempo, mas chegou em 2º lugar...
Apesar da minha respiração ofegante, ainda consigo olhar em frente. Tu estás a uns metros de mim, de braços cruzados, e estás a sorrir. Li o teu sorriso. Dizia:
" Não te preocupes, segue ao teu ritmo, eu sigo ao meu. Na altura certa, eu vou abrandar ou tu vais acelerar e, sem darmos por isso, estaremos a correr lado a lado."
Depois de me teres dado a ler este sorriso, viraste costas e prosseguiste a tua corrida, no teu ritmo, sem nostalgia, sem receio.
Eu segui na direcção oposta (só por enquanto...), no meu passo inseguro mas constante.
No caminho de volta, vou aproveitar para ver tudo aquilo que me passou ao lado quando te perseguia cegamente.
Vou lembrando-me que, algures por aí, o teu sorriso existe.
E está só à espera de uma simples mudança de velocidades.. =)
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