domingo, 13 de setembro de 2009

O Jornal

Na manhã seguinte, o Jornal estaria nas bancas. Um novo Jornal, um novo projecto em que se trabalhava há já algum tempo. Sentados na sala de reuniões, ao princípio da noite, alguns dos responsáveis por este jornal evitavam ir para casa, como se o simples facto de se afastarem alguns quilómetros da recente redacção representasse já a ruína do seu trabalho. Tinham trabalhado com tanto afinco e entusiasmo e agora, que chegara a hora decisiva da publicação, as inseguranças começavam a espreitar pela porta semi-aberta da redacção...
Os jornalistas receavam que os seus textos não fossem bem explícitos e que, em algum instante, não obedecessem às regras de um bom texto jornalístico. Receavam que se tivessem alongado demais ou que as suas palavras não fossem as suficientes. Ficavam inquietos com a hipótese de algum erro ortográfico figurar entre os seus textos (uma coisa tão feia em textos que pretendiam ser tão bonitos). Questionavam as suas escolhas, questionavam-se a si mesmos...
Os colunistas apavoravam-se com o facto das suas crónicas serem, indevidamente, mal interpretadas por alguém.
Os fotógrafos já não sabiam bem se tinham entregue as fotos certas, pois confundiam-se no meio de tantas imagens recolhidas. Era suposto ser a foto nº342 e não a nº811... E aquela foto ali deveria ter sido tirada de outro ângulo, não favorece nada o Ministro! Devia ter aplicado outro efeito, aquele não era o mais adequado...
O Director do Jornal indagava se o seu novo investimento teria algum lucro (nem ele sabe bem que espécie de lucro deseja...), se corresponderia às expectativas dos leitores (que expectativas seriam essas?) e se ocuparia um lugar com visibilidade neste mundo (por mais simples que esse lugar seja). Começam a assumar já, no seu pensamento, possibilidades de melhorias deste jornal, vejam lá, ainda só agora foi lançado!
Enfim, todas as ínfimas partes participantes na elaboração destas páginas põem em causa o seu trabalho, reflectem e chegam à conclusão que tudo podia ter sido feito de uma outra forma. Mas agora já é tarde demais - o jornal já foi para a gráfica, consta que uns quantos exemplares já estão impressos.
Na manhã seguinte, lá está ele nas bancas.
Os colaboradores do jornal observam, atentos, o impacto da sua "obra-prima" no público :
uns nem sequer vêem que ele lá está, o novo jornal;
outros reparam superficialmente nele, mas nem lhe tocam;
outros há ainda que reparam nele e folheiam, mas não compram;
alguns folheiam, e, com algumas dúvidas, acabam por comprar;
outros compram imediatamente, sem sequer dar uma vista de olhos pelas primeiras páginas;
E até para quem compra existem vários caminhos possíveis:
deixá-lo cair no cesto das revistas lá de casa e não mais dar pela sua existência;
ler os títulos e deitar fora;
ler na diagonal e voltar a comprar o jornal de vez em quando;
ler nas entrelinhas e ficar apaixonado.
Na redacção, já todos estão apaixonados. E, por tão apaixonados que estão, continuam o seu trabalho só por essa simples razão e também para que alguém possa continuar a ter a sua reacção, tão legítima como ficar apaixonado - são as reacções ao jornal que já referi acima e tantas outras que não consigo imaginar, por tão pessoais que possam ser.
E é tudo isto que faz do jornal algo que, efectivamente, existe.
É bom existir.
Os receios na redacção continuam, mas já se voltaram a esconder atrás da porta semi-aberta.
É bom que não desapareçam - assim seria tudo demasiado fácil.
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