A solidão assusta. Assusta-me. Principalmente quando a vemos nos outros e tememos que, um dia mais tarde, os outros a vejam em nós...
Tudo isto por causa de uma senhora de meia idade que esteve alguns dias perto de mim, na praia. De manhã levava a mãe, uma senhora dos seus 80 anos, se não forem já 90; à tarde, ia sozinha. Embora possa parecer que a mãe não era grande companhia, sempre era alguém...Alguém que estava lá, presente. Por isso, o que me fazia mais impressão eram aquelas tardes em que a senhora lá estava sozinha. Rodeada de gente, mas só. Dava caminhadas sozinha, ia à água sozinha, nunca se lhe ouviu uma chamada telefónica...Sem ninguém para falar ou para simplesmente fazer companhia. E o que me impressionava ainda mais era que esta fosse uma senhora aparentemente afável, simpática. É de esperar que alguém que ande sempre sozinho seja algo carrancudo, antipático, que não cative os outros. Mas não era o caso desta senhora. Ela sorria a todas as pessoas, na esperança de que alguém quisesse falar com ela e, com sorte, conseguiu dois ou três "Bons dias" durante as férias... E, no entanto, continuava a ir à praia todos os dias, sem desistir. É certo que não conheço esta senhora de lado nenhum, não sei a vida dela, por isso, tudo o que posso dizer são meras considerações sem fundamento algum. Mas quase que aposto que esta senhora lutou, mas que a vida lhe disse "NÃO!". Um "NÃO!" bem grande, bem forte, bem imutável. Há pessoas assim. Outros há que não lutam e, por consequência, estão sozinhos. Mas não é o caso desta senhora, a meu ver. Nesta vida há quatro níveis: "Muito Bom", "Bom", "Suficiente" e "Insuficiente". De forma geral, vamos oscilando, com frequências e intensidades diferentes, entre eles - se nos mantivermos a maioria do tempo no "Bom", com algumas subidas para o "Muito Bom" e algumas descidas para o "Suficiente", pudemos considerar-nos uns sortudos. Na minha opinião, esta senhora luta diariamente para se manter no "Suficiente"... Mas continua a lutar embora a vida, maldosa por vezes, a queira empurrar para o "Insuficiente". Volto a repetir, tudo isto são meras especulações...Baseiam-se naquilo que eu deduzi da situação. E, agora, o momento que me assustou verdadeiramente, no meio de tudo isto. No seu último dia de praia, já de saco arrumado e chinelos calçados, a senhora ia-se afastando do toldo, da sombra que a protegera nos últimos dias, das cadeiras em que se sentara ao sol, e ia olhando repetidamente para trás, com um olhar que eu conheço tão bem. O olhar de nostalgia. Era o fim das férias e via-se que deixava para trás boas recordações. Estava com pena de se ir embora. Aquela expressão fez-me concluir que, de facto, aquela senhora era uma lutadora. Porque só os lutadores conseguem sentir a verdadeira nostalgia dos momentos bem passados e que chegaram ao fim, por agora. E, no entanto, ali estava uma lutad
ora sozinha. Não era justo. Não há nada mais injusto para alguém que luta do que olhar, sem ninguém ao lado, o mar no último dia de praia... Não estava lá ninguém: um marido, uma amiga, um filho...Naquele momento, não estava lá ninguém.
ora sozinha. Não era justo. Não há nada mais injusto para alguém que luta do que olhar, sem ninguém ao lado, o mar no último dia de praia... Não estava lá ninguém: um marido, uma amiga, um filho...Naquele momento, não estava lá ninguém. Tudo isto me fez pensar no quão incerto o futuro é. Provavelmente, aquela senhora sonhou como eu hoje sonho; lutou como eu, a cada dia que passa, vou repondo as minhas forças para lutar mais uma vez. Mas teve o azar de a vida lhe dar o tal "NÃO!"... e isso não dependia dela.
Gostava que esta senhora soubesse que me ajudou a perceber que não quero que a vida me diga "NÃO!" Talvez ela também não queira, mas já seja demasiado tarde para mudar tudo. Mas para mim ainda não é tarde. Se calhar é preciso lutar um bocadinho mais do que aquela senhora lutou...
E lá vai ela, seguindo o seu caminho para casa...Guarda boas recordações das férias. No entanto, quando a sombra do seu toldo desaparecer, ninguém se vai lembrar que ela lá esteve...Vai voltar ao seu trabalho, onde sorri a todos por simpatia e onde lhe sorriem a ela apenas por boa educação...
Tenho uma certeza.
Não quero olhar o mar sozinha, no último dia de praia.
E que se lixe o que a vida quer. ;)
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1 comentário:
Agarrei num texto teu e meti, com as suas devidas aspas e o teu nome no canto inferior esquerdo, no meu blogue.
Precisava daqueles palavras ali. São as que sinto neste momento.
Tantas incertezes que se resolviam se pudesse espreitar um pouco o meu futuro.
Estou prestes a dar um tiro no escuro, e nao sei se devo.
(temos MESSSMO que meter a conversa em dia x))
Love you @
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