Já é noite, é tarde, e eu sigo por aquela estrada que conheço tão bem. Foi a estrada em que aprendi a conduzir, a única que conhecia até então. Uma estrada segura, sem acidentes (de que eu tivesse conhecimento...), com o menor número de curvas possível, bem cuidada, bem sinalizada, com tudo aquilo que eu precisaria para chegar, sã e salva, ao meu destino (seja ele qual for). Bem, lá ia eu por esta estrada... tão bem que a conhecia que, por vezes, me deixava vencer pelo sono e fechava os olhos por um instante...afinal, já sabia o caminho de cor...! Um bocadinho de preguiça não deveria ser nenhum pecado mortal...E, de vez em quando, lá me rendia eu à sonolência. Estava eu nesta minha segurança de condutora experiente quando senti um abanão enorme no carro! Credo, o que é isto? Olhei pelo espelho retrovisor e, apenas por um milésimo de segundo, ainda consegui vislumbrar o que me pareceu ser um buraco na estrada... O quê? Um buraco nesta estrada? Impossível! Sigo por ela há tanto tempo e nunca com tal me deparei! Deve ter sido impressão minha... se calhar adormeci e estava a sonhar...! Ainda bem que acordei, ainda poderia ter tido um acidente, penso eu, ignorante. Deixo-me levar pela sonolência, avanço mais uns quilómetros e zás! brum, trahs, frimmmm, outro embate! Oh Meu Deus, o que é que se passa, o que é que se passa com a minha estrada? Tem imperfeições! (e eu que a julgava tão pura...!) Estou chocada, que faço agora? Num acto heróico, decido consertar a minha estrada: tapar os buracos (as quedas continuam), endireitar as curvas (elas não desaparecem), alisar o terreno (lá estão os altos e baixos). Mas porque é que eu não consigo consertar a minha estrada? Talvez porque esta não é a minha estrada e eu não tenho poderes sobre ela... Talvez porque estas não são as minhas imperfeições, as causas dos meus acidentes... Talvez eu tome por minha uma estrada que não o é... Mas eu gosto tanto desta estrada! Já sei o caminho de cor (argumento eu) e não a quero deixar... Talvez eu tenha que tomar a decisão de construir a minha estrada, de assumir os seus defeitos e de me gabar dos seus sucessos. Talvez esta estrada onde eu sigo já não sirva para mim...E, quem sabe, talvez ela própria melhore com a minha saída... Revejo o caminho que percorri nela e apercebo-me que foi importante para mim. Foi. Agora tenho que estrear a minha própria estrada.
Deixo o meu carro embater no último obstáculo e sorrio, por saber que foi o último... nesta estrada (terá sido?).
Com esta dúvida, faço o desvio que me leva à minha estrada por estrear.
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