domingo, 19 de junho de 2011

Quando as palavras não têm que fazer sentido (atchim)

O frio que entra pela janela escancarada vem carregado de tudo. Traz sobretudo calor, num contraste de opostos. O frio e o calor misturam-se e o primeiro sobressai, talvez por ser mais forte, talvez porque o segundo desistiu. Quem pode dar certezas? Eu não, tu provavelmente também sim. Esta mistura gasosa e arejada entra, a rodopiar, por uma qualquer divisão da casa. Não se vê, mas forma uma espiral entrelaçada, perfeita na sua forma. Pouco a pouco, vai-se desvanecendo; cientifica e erradamente, dir-se-ia que se evapora. Para onde? Para dentro de mim não, provavelmente para dentro de nós sim. Já desapareceu na sua extensão. Entrou pela janela, avançou escassos metros, desapareceu. Efémera em todo o seu esplendor. Encontra-a para mim. Se eu a encontrar, dou-ta apenas se não a esconder na minha gaveta secreta, fechada com um cadeado cuja chave se perdeu há muito tempo. É ar que pode ser a respiração de uma vida, o acender de um isqueiro, a superfície de uma asa de pássaro. Tu arriscarias dizer: o interior de um balão para dentro do qual sopraste ontem. Desconheces que o balão tinha um furo e nunca chegou, efectivamente, a estar cheio. Desculpa a desilusão. Isto acontece às vezes: balões que julgamos cheios e que rivalizam com correntes de ar cujo objectivo último passa por provocar constipações. Atchim. Tenho a corrente de ar dentro do nariz. Atchim. Atchim três vezes. Atchim atchim atchim. Mais do que uma onomatopeia, um espirro. Mais do que um espirro, três espirros. Tenho o nariz ranhoso e a janela aberta. Vou assoar-me, depois vou fechar a janela.




Quando as palavras não têm que fazer sentido.
Atchim.
Não estou constipada, a janela está apenas parcialmente aberta e os rodopios de ar são mais que muitos.

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