Leonor lavava o último prato da pilha que, minutos antes, se encontrava em cima do lava-loiças. Olhou para o relógio de parede da cozinha e confirmou as suas suspeitas de que já era tarde: passavam alguns minutos das 4h30. O prato estava lavado, as arrumações estavam feitas. Estava cansada, mas era um cansaço bom. Tinha sido uma noite bem passada. Tinha convidado os amigos para irem jantar lá a casa, uma rotina que adorava mas que, por força de variadas circunstâncias, era cada vez menos rotina. Uns a trabalhar fora do país, outros a trabalhar dentro do país mas "fora do mundo", outros sem trabalho e embrenhados em vidas trabalhosas, enfim, uma carga de trabalhos. Jantares como os deste dia eram para ser aproveitados e todos sabiam isso. Mas não era uma reflexão sobre a amizade que ocupava Leonor, no momento em que concluía a lavagem da loiça do jantar (os amigos tinham ajudado a arrumar uma parte, mas não tudo). Leonor era arquitecta. Desde muito cedo que sentira o apelo da arte, da expressão e da criatividade. 3 anos e fazia desenhos soberbos, 9 anos e ganhou a alcunha de Picasso, 15 e era a irreverência artística em pessoa. A sua grande paixão era o desenho. Quando teve que pensar no futuro, optou pelo curso superior de Arquitectura. Ela costuma dizer que foi um "repente de bom senso", pois a sua veia artística é mais propensa à destruição de paredes do que à sua correcta idealização. Na faculdade, aprendeu regras mas o seu gosto secreto sempre foi quebrá-las. Fazer uma linha recta. Leonor fazia uma linha recta na faculdade. Chegava a casa e fazia um monte de linhas curvas. Utilizar cores neutras. Leonor utilizava cores neutras na faculdade. Chegava a casa e abusava nas cores mais fortes que encontrava. Enfim, a extravagância da rapariga adolescente ainda estava presente agora, na mulher adulta. Na empresa onde trabalhava, era considerada das melhores profissionais e o seu estilo era bastante recto, como lhe exigiam. Mas o seu maior prazer era chegar a casa e fazer as suas criações desregradas. Leonor estava agora a olhar para uma dessas criações desregradas que, sem dúvida, tinha sido a "rainha da noite". Tratava-se de um quadro que andava a pintar há algum tempo e que tinha dado como acabado havia dois ou três dias. Leonor valorizava muito a opinião das pessoas importantes da sua vida, por isso, aproveitou ter os amigos lá em casa para lhes perguntar o que achavam do quadro.
"Vá, pronunciem-se!" - disse Leonor, sem disfarçar o orgulho na sua obra.
A Mariana foi a primeira a falar.
"Sabes que eu adoro todos os teus quadros. Sou incapaz de não gostar de nenhum. E não é por seres minha amiga, é mesmo porque adoro o teu trabalho. Este é capaz de ser um dos teus melhores quadros de sempre. Transmite muita energia. Um mar revolto, agitado, perigoso... Quase que arrisco que é capaz de matar. Um dia de tempestade.. Está muito bom, Nô!"
"Pá, sabes que eu não percebo muito destas cenas de arte, mas acho que tá porreiro." O Rodrigo, com opiniões sempre muito bem fundamentadas. " Mas muito sinceramente, eu não vejo aí mar nenhum... Isso, para mim, é um magote de gente do Futebol Clube do Porto a festejar a vitória no campeonato, na Avenida dos Aliados!"
"Tu tá mas é calado!" O Filipe era benfiquista de gema. " Nônô, vou ser muito sincero contigo: há qualquer coisa neste quadro que me incomoda... Epá, não te sei dizer o que é, mas há aqui alguma coisa que não me faz sentir bem... Eu vejo aqui um céu, mas um céu estranho... Isto mexe um bocado comigo, mas não é de uma maneira boa... Eu sei que não levas a mal a minha sinceridade, pois não?"
"Claro que não, não sejas parvo." Neste momento, Leonor estava, ela própria, a começar a sentir-se estranha. "E tu, Carlinha, diz lá de tua justiça."
Carla sorriu. "Oh Leonor... Olha, vou ser tão sincera quanto o Filipe foi: o teu quadro não me diz nada. Absolutamente nada. Desculpa, eu sei que isto é um bocado mau de se dizer... Mas, para mim, o que está aí é só a cor azul. Eu não vejo aí nenhuma forma...Não sei se gosto ou se não gosto... Estou um bocado indiferente."
"Ok, vamos jantar", disse Leonor. Entre risos, lá foram jantar.
E agora, quase às 5h da manhã, era sobre isto que Leonor pensava. Os amigos eram como irmãos para ela. Não tinha ficado ofendida ou surpreendida com nenhuma das opiniões deles. Já conhecia os eternos e infindáveis elogios da Mariana, o sentido de humor (por vezes irritante) do Rodrigo e a sinceridade do Filipe e da Carla. Assim, ela não estava surpreendida, estava curiosa, incrédula. Estava a questionar-se. Como seria possível que cada um deles tivesse visto uma coisa diferente no quadro? Mais, uma coisa tão diferente. O quadro não era assim tão abstracto. O mais fascinante foi que nenhum deles acertou no verdadeiro motivo do quadro (motivo esse que Leonor preferia, agora, não revelar). A grande dúvida de Leonor era o que legitimaria o que era o verdadeiro motivo do quadro. O que estava lá representado era o que ela tinha em mente quando estava a pintar? Ela achava que sim. Mas quando os amigos olharam para o quadro e viram coisas diferentes da que ela tinha idealizado, qual era o seu poder para dizer: "Não, não é isso que está aí, estás a ver mal!"? Nenhum. Esse poder não existia ou, pelo menos, não lhe pertencia. Assim, ficou calada enquanto os amigos divagavam sobre a temática da pintura. Deixou-se cair em cima do puff da sala, mesmo em frente ao quadro. "E se eu tornasse este quadro público?", pensou. "E se eu o expusesse numa galeria? E se eu divulgasse, de algum modo, a sua imagem na Internet?". Leonor pensou nos amigos. Eram pessoas diferentes entre si, claro. Personalidades bem marcadas e distintas. Mas, no entanto, eles tinham uma base comum, por assim dizer. Tinham crescido na mesma cidade, frequentado a mesma escola. As pessoas das suas relações eram, mais ou menos, as mesmas. Tinham vivências semelhantes, embora diferentes naquilo que, obviamente, tinha que ser diferente. Se entre quatro pessoas com tanto em comum as opiniões sobre o quadro eram tão distintas, como seria se mais pessoas vissem a obra? Leonor, neste ponto, quase que entrou em pânico. Apercebeu-se que alguém poderia ver no seu quadro o fim do mundo, um genocídio, um homicídio, um holocausto, uma cena pornográfica, uma imagem racista ou xenófoba e que ela nada poderia fazer em relação a isso. Ou poderiam desvendar no quadro uma coisa estúpida, uma coisa sem piada. Podiam ver plágio, podiam ver uma coisa feia. Podiam ver tudo e ela não podia fazer nada em relação a isso. Porque o que cada um vê foge ao controlo do outro. Leonor apercebeu-se do risco ao qual se expunha quando pintava. Ganhou consciência de que criar qualquer coisa era um perigo. Ao princípio, ficou humanamente assustada, mas rapidamente passou para o estado de "artisticamente feliz". Ela gostava desta sensação de criar e de tanto poder originar discórdia como concordância. 5h30 da manhã. "Ok, Leonor, vai dormir.", pensou para si mesma. Levantou-se do puff, espreguiçou-se e sorriu ao mesmo tempo. Estava quase a sair da sala quando um outro pensamento lhe ocupou a mente:
A ausência de qualquer olhar é pior do que um olhar mau, bom ou diferente.
Leonor olhou para o quadro. Não tinha medo que vissem nele coisas diferentes. Isso era, até, algo que a maravilhava. Tinha medo era que não olhassem para ele. Bem... não podia controlar o que viam, por isso, também não podia controlar se viam.
"O que é que eu posso fazer...?", perguntou, interiormente, a si própria. "Leonor, ganha juízo, são quase 6h da manhã."
Com uma irreverência artística de 15 anos, Leonor foi-se deitar e deixou o quadro libertar-se um pouco de tantos olhares... Isso também não deve ser nada bom para ele.
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