Ela não dormiu nada a noite passada. Tinha tentado, por uns momentos, enrolar-se no meio dos lençóis, esconder a cabeça do mundo debaixo da sua almofada e entrar no mundo do sono profundo, mas não conseguiu. Tinha a cabeça cheia de preocupações. Coisas infinitamente chatas do trabalho para concluir, mal-entendidos com pessoas das suas relações para esclarecer, remodelações em casa que eram adiadas há meses e parecia que tudo isto a tinha vindo atormentar nesta noite. Solução encontrada? Agarrou-se ao computador e, freneticamente, tentou adiantar, pelo menos, todas as coisas de trabalho que tinha para fazer. Objectivo atingido em parte, não em completo.
Ele quis sair à noite. Tentou arranjar companhia, mas em vão. Todos estavam ocupados ou diziam estar ocupados (ele não conseguiu perceber bem...mentes humanas nunca tinham sido o seu forte.) Mesmo assim, sózinho, decidiu sair. Saiu. Olhava para os rapazes que se cruzavam com ele e reviu-se a ele mesmo e aos seus amigos de há uns anos atrás (sorriu e decidiu que, qualquer dia, lhes havia de mandar uma SMS); olhava para as raparigas e sorriu apenas (achou que não valia a pena lembrar-se do resto). Nada daquilo fazia sentido agora: as luzes já não traziam loucura, as bebidas já não sabiam tão bem, a música já não o fazia dançar. Voltou para casa.
Ela olhou-se ao espelho da casa-de-banho. Que olheiras, meu Deus! Que mau aspecto! Abriu a gaveta do armário mas duvidava que algo disfarçasse as marcas daquela noite tão bem passada... Ela olhou em volta, para a sua casa. Era tudo aquilo pelo qual se tinha esforçado até ao momento. Tinha tudo o que queria, como queria. Ela era ainda jovem, tinha entrado há pouco tempo nos trinta...Já tinha o estatuto que a colocava no patamar de "MULHER" mas ainda conservava a aparência que a mantinha no patamar de "RAPARIGA". Olhava em volta, mas não encontrava o que procurava.O que queria. Saiu de casa para ver se encontrava. Entrou no seu carro e partiu.
Ele estava sentado no sofá, com uma taça de cereais ao colo. Despenteado, barba por fazer, mal-disposto. Facilmente irritável. Tomou um duche de água fria e pôs-se mais decente. Não tinha nada para fazer. Decidiu percorrer a agenda do seu telemóvel. Tantos nomes de bons momentos que ele já tinha esquecido. Não havia vontade de lembrar. Já não eram fontes de novidade.Ele já não queria aquilo. Percorreu vezes sem conta todos aqueles nomes, do A ao Z, do Z ao A...Quem eram elas? E porque é que ela não estava lá? Apeteceu-lhe ir dar uma volta de carro. Ligou o rádio e acelerou.
Ela conduziu por aquela estrada da marginal distraidamente. Óculos escuros, cabelos ao vento...Uma estrela de Hollywood com uma noite mal dormida em cima. Questionou-se a ela própria no que tinha andado a pensar todos aqueles anos. Sempre tão trabalhadora, sempre tão concentrada, sempre tão determinada...e agora lá estava ela, a conduzir naquela estrada da marginal. (Estaria tudo predeterminado para que naquele dia, àquela hora, ela conduzisse ali só porque tinha dormido mal na noite passada?) Olhou para o banco do lado. Vazio. Conduzia sozinha. Mas também, quem queria ela que lá estivesse? Nunca se tinha preocupado com isso. Tinha outras coisas em que pensar. E agora, arrependia-se? Todos aqueles que se tinham mostrado interessados em ocupar aquele lugar tinham sido afastados em prol de algo superior. Ela puxou para dentro a lágrima que estava quase cá fora e acelerou.
Ele sempre tinha conduzido rápido e gostava de o fazer. Por isso, seguia por aquela estrada da marginal a uma velocidade assustadoramente rápida. Mas a velocidade era algo que não o intimidava. Umas atrás das outras, as suas paixões tinham sido mais velozes do que o seu carro. A 120kmH, sempre no limite. Obviamente que os quilómetros tinham sido pouco importantes. Mas ele tinha-se importado com isso na altura? Ora essa, claro que não! Queria conhecer muita gente e, a seguir, conhecer ainda mais. Queria ter muitas apaixonadas à sua volta e nem sequer se lembrar de como elas se chamavam. Queria aproveitar o facto de elas caírem aos seus pés sem que ele fizesse o mínimo esforço. Agora, o telemóvel tocava e o número era desconhecido. Ele tinha apagado todos os contactos da agenda telefónica e o telemóvel seguia, vazio, no banco ao seu lado, também vazio. Ele só queria um contacto no telemóvel.
- Posto da polícia, bom dia.
- Bom dia. Olhe, daqui fala do café "Sabores da Beira-Mar", da Estrada da Marginal. Era para avisar que houve aqui um choque entre dois automóveis, agora mesmo.
- Há feridos? Já chamaram os bombeiros?
- Não não, não houve feridos. Não é caso para alarme. Mas sabe, isto foi assim uma coisa meio esquisita. Os carros chocaram mas a única coisa que aconteceu foi que os bancos ao lado do condutor explodiram... Mas os condutores estão bem, eu estou a vê-los daqui. É uma rapariguita e um rapazito ainda novos... Já tiraram os carros da estrada e estão agora pasmados a olhar para os lugares onde, supostamente, estariam os bancos...Isto não lembra ao diabo! Que coisa do arco da velha!
- Oh minha senhora, se os bancos explodiram é porque já não são precisos! Não se preocupe, adeusinho!
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Que explodam muitos bancos sem feridos ;)
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7 comentários:
adorei.
talvez a tensão naqueles bancos vazios fosse suficiente para explodirem. ou a ausência de um preenchimento..
ou simplesmente explodiram porque não seria necessário carregarem ninguém.
um conto que diz muita coisa.
já agora, foste tu que escreveste?
beijinhos*
Ah mas que interessante... :D
claro que fui eu que escrevi, ana ! nao duvides das minhas capacidades :P
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posta mais coisassss catarina :c
Ainda bem que a Pata nos explicou o que ficou implicito na história xD A sério que adorei! Já o li dezenas de vezes e não me canso.
Sem duvida, digno de um nobel =)
Sim senhora, confesso que gostei do texto. Aliás, adorei. Está lindo e acabei de o reler pela 3ª vez. Muito bom mesmo Catawina, tirava-te a cartola se tivesse uma! =D
já é super antigo mas eu adorei este texto, e decidi guarda-lo!
muito bom mesmo catarina @
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