quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sonhador Viciado

" Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e de vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.
Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.
Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.
Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri."
Fernando Pessoa
Há quem diga que Fernando Pessoa, de vez em quando, para "expandir a sua criatividade", tomava algumas "substâncias químicas"... Drogas. Bem, obviamente eu não posso saber se isto é verdade ou mentira - abstenho-me de opinar sobre as supostas dependências de Fernando Pessoa. Não tenho forma de saber se o seu génio criativo era fruto de uma imaginação fora de série ou de uns quantos pozinhos mágicos milagrosos...
No entanto, este poema leva-me a pensar: não teremos todos uma pequena dose de pozinhos milagrosos escondidos algures dentro de nós e que, por vezes, se libertam, se espalham pelo nosso corpo e pela nossa mente e nos levam a desejar "ilhas do fim do mundo"? Esta possibilidade parece assim tão excêntrica, tão descabida, tão irreal? Para mim, nem por isso. Não me surpreenderia se, mais dia menos dia, se descobrisse que todos temos um armazenamento de pozinhos mágicos dentro de nós, muito bem escondidos. Porém, esporadicamente, por necessidade inconsciente nossa, estes pós têm que deixar o seu esconderijo e viajar pelo nosso sangue, espalhar-se por todas as partes do nosso corpo que ainda consigam sonhar. E qual é o efeito deste processo? Pensar, por momentos, que podemos fugir para uma ilha onde a felicidade plena é atingível. Um sítio onde todos os nossos medos e preocupações são barrados à entrada, porque simplesmente não têm passaporte. E, nesse sítio, divagamos, mais livres do que nunca. Tudo é suave, descomplicado, belo... Enfim, a perfeição segundo os padrões de cada um de nós.
E eis que os pozinhos mágicos deixam de funcionar e nós nos apercebemos que essa ilha não existe, não existiu e, possivelmente, nunca existirá. Possivelmente...
Racionais, não queremos viver numa alucinação; é uma realidade que não existe, logo, acaba por significar apenas uma felicidade momentânea e vazia.
Sonhadores, temos a capacidade de voltar a repor o nosso armazenamento de pozinhos que, quando precisarmos de esquecer um pouco esta ilha deste mundo, voltarão a estar disponíveis para serem utilizados.
Talvez Fernando Pessoa fosse apenas um sonhador viciado.
Critiquemos o vício, deixemos o sonho em paz.
@

1 comentário:

Maria Genoveva disse...

Pois é!!! O que agrada em Pessoa é o facto de ele nos mostrar a essência da vida. Afinal...todos temos os mesmos desejos e as mesmas dores ou alegrias . As manifestações é que são diferentes...uns mais racionais ...outros mais emotivos.Enfim...diria que todos precisamos de "pozinhos" que nos façam desligar de vez em quando!!!A miúda é engraçada faz uns comentários giros!!