Observar é uma capacidade fantástica, quando se sabe utilizá-la. É-o ainda mais quando acontece involuntariamente.
Aconteceu, por mero acaso, olhar pela janela há uns minutos atrás. O dia estava naquela fase em que já não havia luz, mas também não havia escuridão. O céu cobria-se de um azul que não era claro, mas também ainda não era escuro; não havia nuvens (eu, pelo menos, não vi nenhuma) e este céu primava por uma uniformidade quase inimaginável...
E, de repente, senti-me inspirada. Inspirada por toda aquela calma, toda aquela magia que provinha de uma paisagem à qual eu tantas vezes sirvo de público, mas que raramente é por mim aplaudida...
Resolvi observar os pormenores.
Notei que, para além daquele azul dominante, o laranja estava também bastante presente - nos candeeiros de rua (onde conseguia distinguir uma melga que passava de vez em quando, destemida), nos quadrados longínquos que são as janelas de casas de alguém... Os prédios da vizinhança, robustos e implacáveis, mantinham a sua posição. Gritavam de vida por dentro mas, por fora, estavam mortos. E observei ainda as árvores. Os seus ramos e folhas moviam-se quando tocados pela brisa nocturna, que ainda era considerável. Dizer que as árvores pareciam "dançar" ou "cantar" soa muito a cliché... mas era algo do género... Estariam talvez a ter uma simples conversa. =)
A pouco e pouco ia anoitecendo, mas eu continuei a observar. Na pequeno troço de estrada que existia no meu campo de visão, os carros corriam em busca do seu destino. No passeio, esporadicamente, alguém passava: um casal de idosos, um casal de meia-idade e o seu filho, duas amigas... Acredito que ninguém me viu - sentada no chão, com o computador ao colo, a janela da varanda entreaberta, deixando o fresco da noite passear pelos cortinados e pelas minhas pernas. A janela era uma barreira entre mim e este princípio de noite que me fascinava.
De repente, senti a necessidade de o ir viver para outro sítio: fora de casa, fora desta zona, fora deste país... Para o sítio que me proporcionasse aproveitar esta noite ao máximo. Passaram-me pela cabeça muitos sítios, sítios onde eu pensava que esta noite encaixaria perfeitamente e onde eu queria estar. Quando a brisa nas minhas pernas sopra mais forte, quase parece que já estou num desses sítios. Não vou fechar os olhos para tornar esta ilusão mais real - ela torna-se mais real se eu os conseguir abrir ainda mais...! E, através deles, chegar lá.
Já é noite, definitivamente.
Muita coisa em mim nesta altura... muita pressa, muita ânsia de sair, de viver...
Fico por aqui ... esta noite ;)
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