Chegou a casa depois de mais um dia de trabalho, um de tantos outros. Empurrou a porta atrás de si e dirigiu-se apressadamente para o sofá, atirando sem cuidado a mala e o casaco para o canto oposto da sala. Depois de alguns minutos de repouso, sem a execução de qualquer movimento, levantou ligeiramente o pescoço e olhou pela janela. Orgulhava-se de ter escolhido aquele tipo de janela ampla, que lhe permitia ter uma visão global sobre toda a cidade; às vezes, quase que se assemelhava a um ecrã de cinema e, nessas alturas, sentia-se como um espectador passivo da sétima arte (e gostava de se sentir assim). Vencendo uma pequena ponta de preguiça, deslocou-se até à janela e encostou a testa ao vidro frio. Sentiu o esperado embaciar da superfície e fechou os olhos, rendendo-se ao refrescar. Pensou que podia adormecer ali, se não tivesse tanto em que pensar e tanto que decidir. Com um suspiro algo exasperado, abriu a porta da varanda e saiu para o frio da noite. O vento forte despenteou-lhe os cabelos (mais do que aquilo que já era natural em si). Aquela fresquidão era boa, era estimulante e transmitia a sensação de leveza que precisava para pensar a sério sobre a sua vida. A sério que ao fim de todos estes anos ainda precisava de pensar? O mais ridículo era o facto das dúvidas serem as mesmas. Quando não eram iguais, eram bastante semelhantes, tinham a mesma essência e, tudo bem espremido, iam dar ao mesmo. Esta conclusão irritou-a e aborreceu-a. Apoiou os braços no parapeito da varanda, como se não tivesse mais força para apoiar o peso do seu corpo. Pensou em várias pessoas que se tinham cruzado consigo, em várias situações e por diferentes motivos. À medida que se ia lembrando das caras, como se folheasse mentalmente um álbum de fotografias, vários sentimentos lhe assomavam à memória. Amor, amizade, injustiça, saudade, medo, incerteza, repulsa, protecção, admiração. Ou, também frequentemente, tentativas destes sentimentos. Tentativas e misturas. Sim, misturas (por vezes improváveis), que formavam novos géneros de sensações. Únicos e muito próprios. Intrigou-se ao pensar nas voltas que o mundo dá e naquilo que traz e leva nessas voltas. Perguntou a si mesma se as voltas se repetiriam. Se, por acaso do acaso, voltaria a estar num cruzamento onde já estivera antes. Apercebeu-se que muito dependia de si, mas muito também dependia de tantas outras coisas incontroláveis. Ali, naquela noite escura e fresca, sentiu-se livre e independente. E, de certa forma, também impotente. Que podia fazer? Lutar contra o destino? Será que esse destino existe? Ou a luta é para sempre vã? Ah, não, demasiada metafísica para esta noite tão terra-a-terra. Caminhou pesarosamente para um dos cantos da varanda e pegou no telemóvel. Enviou a mensagem que já estava escrita há demasiado tempo e que ganhava bolor nos rascunhos. E fosse o que fosse. Porque os caminhos são demasiado estranhos para os classificarmos de improváveis. Nunca se sabe. You never know, lá está. Talvez a resposta fosse um sim, um não, um talvez, um desprezo. Mas porque é que suposições deviam ser impedimentos ao livre fluxo das palavras? E, ainda para mais, naquela noite fresca (agora já era fria, 3h). Nada podia correr mal.
E talvez não tenha corrido mesmo.
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