A pouco e pouco, vai-se perdendo o medo das palavras. Elas vão ganhando contornos mais delicados, menos ofensivos e, onde antes víamos monstros assustadores agora vemos inofensivos animaizinhos simpáticos. É aquele momento em que "ligamos o descomplicador" (ouvi uma vez esta expressão e nunca mais a esqueci). Voltamos a entender perfeitamente a beleza do céu azul, a paz do silêncio da tua voz e o privilégio que é caminhar por estas ruas todos os dias. O coração parou de bater. "Clear! Clear! Clear!". Nada. Mas agora os raios de sol voltaram a ser quentes, a chuva voltou a ser deliciosamente fria e nós voltámos. Utilizar, aqui, o verbo "voltar" não é totalmente correcto. Nós nunca nos fomos embora. O que aconteceu foi que a dormência que às vezes ataca os nossos pés se espalhou pelo corpo inteiro e nem fazer cruzinhas com a ponta dos dedos resultou. São tão bons aqueles momentos de lucidez em que vemos nitidamente o nosso caminho à nossa frente. São tão bons mas, ao mesmo tempo, tão fugazes. Parece que se escondem debaixo de uma gigante nuvem negra e que só os conseguimos vislumbrar quando uma pequena aberta nos concede essa oportunidade. É um daqueles momentos em que nos lembramos daquilo que íamos dizer e nos esquecemos logo de seguida. É o momento em que vimos à superfície depois de um mergulho no mar e somos os donos de todos os oceanos. Quando um doce muito doce ainda é doce e não é enjoativo. Quando o sorriso para a fotografia que tarda a ser tirada ainda não é plastificado. Tão rápido, tão claro e ups!, desapareceu e pode não voltar. Como algo escorregadio que nos foge das mãos e nos faz fazer figuras tristes. Manual de instruções que desvenda todos os segredos mas é ignorado. Dê por onde der, vamos tentar ir por aí. Vamos cair na esparrela de percursos alternativos fracos, perigosos, sem saída. Vamos arrepender-nos e olhar para trás muitas vezes. Vamos ter vergonha da nossa assinatura e tentar por tudo escondê-la. Porque é que nos questionamos se devemos ir em frente sempre que já estamos em pleno caminho? Dúvidas - sempre mais do que desejos. Mas vamos por aí. Vamos comprar bilhete para o espectáculo em que somos a personagem principal e fazemos figura de parvos. Mas acreditamos que os corações batem sem o "Clear!". Temos provas disso. Quando o "Clear!" não é audível, vivemos numa festa permanente. Estamos sempre vivos. Pelo caminho, aprendemos a decifrar as metáforas dos outros e a vê-los, a eles próprios, como bonitas frases de um texto que construímos todos juntos. Mesmo sem sabermos, acrescentamos vírgulas decisivas, pontos finais determinantes e pontos de interrogação indispensáveis. Sabemos onde faz falta um parágrafo para mudar de assunto. E, no fim, o texto é nosso. Lemos o produto final do nosso trabalho enquanto vamos no nosso caminho. É nosso e não sabemos. Mas diz-se: nada é mais bonito do que não nos importarmos com o vento que nos despenteia. Por a cabeça do lado de fora do carro, fingir que estamos num filme ou num videoclip e levantar os braços. Porque, ao fim e ao cabo, estamos num filme ou num videoclip e ainda não o percebemos. Sorrir e lembrarmo-nos disso de cada vez que há olhos a olhar, bocas a falar, ouvidos a ouvir, narizes a cheirar e corações a tocar. "Clear!".
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