É fácil carregar no botão quando há uma paisagem que nos encanta, um momento que não queremos esquecer ou uma pessoa mais que especial... Mas será legal?
Há por aí uma história de terror que conta que as fotografias aprisionam as almas. O flash da máquina é o trancar do cadeado da cela que sentencia prisão perpétua. Não é propriamente uma história em que eu acredite, mas isso não me impede de pensar se é lícito ou não guardarmos pedaços da nossa vida num pedaço rectangular de papel ou, recentemente, num pedaço digital de bits ou frames ou pixeis ou qualquer outro nome informático. Não se trata aqui de ser lícito em relação a nós; isso é, tenho a certeza. Trata-se de ser lícito para as imagens em si...E aqui refiro-me, designadamente, às fotografias de paisagens.
As fotografias de paisagens são, normalmente, as mais impressionantes. Algo nos leva a fotografar um espaço onde não aparece ninguém e isso é muito especial. Damo-nos ao luxo de fazer zoom e captar pequenos pormenores que escapariam ao olhar mais atento. Para cúmulo, ainda temos a oportunidade de trabalhar a imagem em computador e torná-la mais perfeita, ao ponto de quase não parecer real, visto não possuir defeitos flagrantes.
Há umas décadas atrás, enfiaríamos a cabeça dentro de um pano preto e esperaríamos alguns minutos até o resultado final sair cá para fora. Há menos décadas atrás, fecharíamos um olho e esbugalharíamos o outro, encostando toda a nossa cara a uma máquina. O rolo seria, posteriormente, levado a um fotógrafo, que o revelaria e, já em casa, no meio de uma grande excitação, colocaríamos, então, as fotos dentro dos álbuns com capinhas de plástico. Actualmente, o processo resume-se a um cabo USB.
Hoje em dia, é possível apagar uma foto que não ficou muito bem, eliminando qualquer hipótese de ela poder vir a ser vista. Há uns anos atrás, a foto seria revelada e, muito provavelmente, motivo de risos.
Tendo em conta tudo isto, acho que a melhor máquina fotográfica alguma vez inventada é a nossa memória. Uma fotografia é a nossa memória em imagens; um vídeo é a nossa memória em imagens animadas e som. Mas a nossa verdadeira memória armazena muito mais do que imagens (sejam elas animadas ou não) e sons... Armazena tudo aquilo que é impossível descrever. A melhor vantagem da nossa memória será, muito provavelmente, nunca ficar cheia. E, mesmo quando parece cheia, nunca o está verdadeiramente. Quando eliminamos, por nossa vontade, alguma coisa, ela nunca se apaga realmente (para o bem ou para o mal...). E, quando parece falhar, essa falha nunca acontece a 100%. E porquê? Precisamente pelo facto de armazenarmos mais do que simples dados. Há algo que os liga e esse algo não falha.
Talvez a fotografia não seja mais do que o desejo de guardar materialmente aquilo que, sem saber, já guardámos na nossa memória. A fotografia é imperfeita porque não pode competir com tudo aquilo que está subjacente a ela.
Adoro tirar fotografias, aparecer em fotografias, ter fotografias, partilhar fotografias, ver fotografias...
Adoro prevenir a provável falha da minha memória a (estimativa) uns 30% e torná-la material... para compensar a falha.
Olhem sempre para o passarinho e digam "Cheese!" ;)
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1 comentário:
juro que adorei o texto :D
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