Arrasto a porta que dá acesso à varanda da sala e atravesso-a, decidida, até ao parapeito (não dou mais do que dois pequenos passos). Encosto a minha barriga contra a varanda e apoio os meus braços no parapeito, o mais esticados possivel - entre uma mão e outra, talvez mais do que um metro. Estou precisamente na posição de quem aprecia uma paisagem, do alto de uma varanda. É isso que faço.
Olho para o meu lado direito e vejo uma marginal. O mais à direita possível do meu campo visual estão prédios. Prédios altos e imponentes mas, ao mesmo tempo, têm alguma coisa de frágil. As suas diferenças (de altitude, de cor, de forma) tornam-nos estranhamente iguais, ali, a servirem de margem à marginal. O prédio onde estou não é mais do que uma continuação destes, situado um pouco mais à frente. Penso que os hotéis são os prédios mais bonitos, essencialmente por causa da luz. Os restantes prédios também têm luz, mas são luzes que nascem dentro de casas, aprisionadas entre paredes e que, esporadicamente, conseguem escapar através dos vidros de uma janela de cortinados afastados. As luzes dos hotéis são mais livres e mais brilhantes - são mais luzes (pelo menos deixam essa impressão).
Começo a desviar o meu olhar um pouco mais para a esquerda. A marginal em si - pedra da calçada, pessoas a pisarem-na. Nada que mereça especial relevo, tirando talvez o facto de parecer que se estende infinitamente até um sítio que eu não sou capaz de avistar, do alto da minha varanda.
Encaminho, então, o meu olhar mais para a esquerda. Uma espécie de jardim. Muitas árvores que abanam perigosamente, na minha opinião, talvez devido à brisa muito fresca que sopra. Lembro-me que devia ter secado o cabelo mas também agora já não vale a pena - até sabe bem. Reparo que as árvores são completamente diferentes entre si. Todas estão desajustadas em relação à paisagem em que se inserem - fariam mais sentido num país tropical. Não falo só da palmeira, mas também das outras, aquelas de que eu desconheço o nome. Se calhar devia chamar-lhes pinheiros ou plátanos mas concluo que seria estúpido. Seria o mesmo que quem não sabe o meu nome me decidisse chamar Felismina. E visto que estúpido foi este paralelismo, decido olhar para outra coisa.
Por trás das árvores, bem escondidas, estão três cores. Uma lista de azul muito escuro em cima que vai clareando até se transformar numa lista de um azul mais claro. Por último, uma terceira lista laranja, a qual se poderia desdobrar numa lista mais fininha amarela, se eu quisesse dizê-lo... Parece uma qualquer bandeira nacional. Resumindo: pôr-do-sol. Por trás de árvores das quais só conheço a palmeira.
Olho, agora, a última parte desta paisagem que me é permitida observar do lugar onde me encontro (talvez seja a mais bonita de todas) : o mar. A cereja em cima do bolo, o ponto final da frase, os retoques finais da pintura. Apercebo-me que para tornar qualquer paisagem bonita basta completá-la com um bocado de mar. É certo que existem paisagens lindíssimas sem mar, mas aquela porção de água azul dá sempre o toque final. Há alguma ondulação (não esqueçamos que está vento e eu continuo de cabelo molhado) mas o oceano continua a transmitir calma. Seria uma bela fotografia mas recuso-me a aprisionar aquele pedaço de mar dentro de uma máquina fotográfica digital - prefiro deixá-lo ali - a navegar, a nadar, a mergulhar em si mesmo.
Prédios, marginal, árvores, mar.
1 - Se calhar devia ter feito outra coisa qualquer.
1 - Se calhar devia ter tido outra atitude.
1 - Se calhar fiz bem e acho que não.
1 - Se calhar ainda me vou arrepender...
... ou se calhar não.
2 - Se calhar vai valer a pena.
3 - Se calhar não me devia importar.
2 - Se calhar devia esperar para ver.
4 - Se calhar não devia estar à espera de mais.
5 - Se calhar era melhor ir para dentro porque o meu cabelo não há meio de secar.
Prédios, marginal, árvores, mar.
O mar? O futuro inspirador que vislumbro, sem saber se alguma vez chegará.
Recolho-me dentro de casa.
O que é que há lá? A minha vida, de onde eu avisto prédios, marginal, árvores, mar.
Repete:
Prédios, marginal, árvores, mar.
Prédios, marginal, árvores, mar.
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2 comentários:
armação? :o
nao, foi mais inspirado em monte gordo :P mas acredito que se possa adaptar a todo o algarve :p
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